É fato que o mercado reage às notícias com maior ou menor vigor, dependendo da relevância e da urgência do fato revelado. Para ilustrar essa situação, apresentarei a seguir três exemplos: com impacto em todo o nosso mercado, impacto parcial e impacto praticamente nulo.

  1. Em 17 de maio de 2017, o então Presidente Temer foi gravado dando aval para comprar o silêncio do ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha. O dia ficou conhecido no mercado como “Joesley Day”, pois quem fez essa gravação foi o dono da JBS, Joesley Batista, em acordo de delação premiada. Na época, a reforma da previdência era uma possibilidade real, mas essa notícia impossibilitou o prosseguimento dos processos em Brasília e, logo no dia seguinte (18/05/2017), o Índice Bovespa teve a maior queda desde 2008, na crise do subprime (-8,8%), enquanto o dólar subiu mais de 8% em uma única sessão.
  2. Em 25 de janeiro de 2019, a bolsa de valores brasileira estava fechada devido ao aniversário de São Paulo (feriado municipal). Mas, neste mesmo dia, a barragem de Brumadinho (MG) pertencente à Vale S.A. estourou, resultando em um dos maiores desastres humanitário, industrial e ambiental do país. As ações da empresa (VALE3) caíram mais de 20% no primeiro pregão após o ocorrido e a queda não foi recuperada ao longo de 2019. Contudo, apesar do Índice Bovespa ter refletido essa queda, as ações de diversas empresas de outros setores diferentes subiram, pois não foram impactados pela tragédia. ITUB4, por exemplo, subiu mais de 2% e a ABEV3 subiu 4,6%.
  3. Em maio de 2019, a primeira ministra britânica, Theresa May, deixou seu cargo após 3 anos de esforços quase diários enfrentando o desafio de um acordo para a saída da União Europeia (o Brexit). Esse cargo possui uma das mais altas relevâncias na hierarquia política do Reino Unido e a situação do Brexit tem impacto em toda a zona do euro, uma das regiões econômicas mais relevantes do planeta. Entretanto, a notícia não teve muito impacto no mercado brasileiro, que, naquele momento, estava voltado para a aprovação da reforma da previdência e de olho nas tensões comerciais entre EUA e China.

Dessa forma, entendemos claramente que depende muito da notícia e do contexto até concluirmos se vale a pena levá-la em consideração. Antes de sair por aí interpretando os fatos e abrindo posições no mercado, é importante digerir uma dura realidade: nós, traders e investidores pessoa física, estamos em grande desvantagem, pois não temos a mesma qualidade de informações que as grandes instituições financeiras. Resumindo, na corrida por informações relevantes ao mercado, sempre largamos muito atrasados. Inclusive, isso tem um nome: assimetria de informações.

Contudo, não quer dizer que as grande instituições possuem informações privilegiadas de forma ilícita; aliás, na prática, elas possuem terminais de notícias mais avançados (e caros), expertise para interpretar os fatos e os algoritmos para executar seus planos praticamente em tempo real. Quer um exemplo?

Em 13 de agosto de 2014, o candidato à presidência, Eduardo Campos, faleceu em um trágico acidente de avião, que, obviamente, surpreendeu a todos no mercado. Mas, antes que os investidores pessoa física pudessem se dar conta da situação, os grande players institucionais já haviam mexido com os preços, tomando posições quase imediatamente após o acidente, em parte graças a algoritmos elaborados para lidar com “breaking news” (imprevistos, em geral).

Caso você esteja pensando em contratar um bom terminal de notícias para se colocar ao lado das grandes instituições, saiba que o Bloomberg (principal terminal de notícias no mundo) custa cerca de dois mil dólares por mês. E, mesmo com um terminal desses, você precisaria de algoritmos e um time de especialistas para interpretar e modelar cenários.

Mas não desanime, pois, embora as notícias não tenham muita utilidade para se operar de forma imediata no day trade, ainda podem ser muito úteis, especialmente para operações de longo prazo. Por essa razão, é importante ficar ligado no contexto macro e, para isso, não é preciso um terminal de notícias de última geração. Eu mesmo gosto de acompanhar notícias internacionais em alguns sites, mas, para não perdermos o foco, abordarei esse tema na aula seguinte.

Para finalizar, infelizmente não há uma regra fixa sobre como aproveitar as notícias do mercado, pois, como acabamos de ver, elas variam bastante (em todos os sentidos). Vou dar alguns exemplos pessoais.

  • Durante as eleições presidenciais de 2018, ainda no meio do ano, pouco após a copa do mundo, Bolsonaro ganhava força nas pesquisas eleitorais e muita gente discutia ideologia política no chat do Portal do Trader. Em um belo dia, comentei ao vivo: “quem realmente acredita na eleição do Bolsonaro, pode transformar sua crença em oportunidade comprando ações da Forjas Taurus, pois a empresa poderia se beneficiar de uma política pró-armamento da população”. Nas semanas seguintes, a ação disparou mais de 400% em cima dessa premissa.
  • Ao longo do primeiro semestre de 2019, a bolsa brasileira renovou máximas na expectativa da aprovação da reforma da previdência; contudo, em julho o congresso entrou no conhecido recesso parlamentar. Com as discussões sobre a reforma da previdência em “stand by”, era de se esperar que o mercado fosse corrigir (ou embolsar parte dos lucros), portanto, abri uma venda em contratos futuros do índice em torno dos 106.500 (tecnicamente também acionaria um padrão de topo ali), e "surfei" alguns dias de queda, sem passar calor em momento algum.
  • Em 10 de outubro de 2019, os mercados internacionais amanheceram otimistas com relação a um possível progresso na reconciliação comercial entre China e EUA. A Vale é uma empresa muito sensível ao mercado chinês, assim como diversas siderúrgicas. Na ocasião, fiz uma compra para day trade em CSNA3 (siderúrgica), que me rendeu quase 2,5% em apenas uma manhã (o objetivo foi calculado com uma projeção de Fibonacci, técnica que será abordada nas aulas de análise técnica). Portanto, mesmo no caso de day trade, por meio de notícias, é possível estabelecer alguns alertas.

Uma situação bastante comum que costuma "mexer" com os preços de ações de forma pontual é a divulgação de balanços. Players de "diversos cacifes" (desde pessoa física aos grandes fundos de investimento) projetam crescimento dos lucros das empresas baseados em múltiplos (que serão abordados nos módulos mais à frente).

Após a empresa divulgar o resultado, o mercado pode reagir de forma contundente, levando os preços das ações para o alto ou para baixo. Em dias assim, é possível tirar proveito do aumento de volume negociado, da liquidez e da volatilidade da ação, mas tomando o devido cuidado de observar qual comportamento os grandes players estão adotando.

Não é raro ver preços despencando diante de bons resultados ou alta após números ruins. Isso porque os resultados podem tanto frustrar quanto surpreender expectativas anteriores — o balanço veio bom, mas abaixo do esperado ou veio ruim, mas melhor do que o previsto.

Exemplos diversos não faltam, mas, agora que você tem uma ideia mais clara sobre como aproveitar notícias de mercado, é questão de tempo e alguma prática para aproveitar boas oportunidades. Portanto, faça da leitura matinal de notícias sobre o mercado um hábito!