Sei que já contei a minha história algumas vezes, mas vá se acostumando, pois trechos da minha jornada serão revisitados algumas vezes, sob óticas diferentes, ajustadas ao contexto em questão. No caso, como iniciei minha carreira dentro de uma mesa de operações, ao lado de outros 11 traders, era comum chamarmos atenção para alguma oportunidade durante o pregão. Como todos nós ocupávamos a mesma sala, a comunicação era direta e, muitas vezes, literalmente no grito. Lembro como se fosse hoje quando alguém alardeava “tem um paredão na XYZ (código do ativo)” e íamos todos para a mesma ação fazer basicamente a mesma operação. Mas o que seria esse paredão?

Creio que seja um termo bem local, criado naquela mesa de operações com uma série que traders ainda estavam em fase de aprendizado; contudo, o entendimento é bem simples. Acredito que a primeira vez que esse conceito surgiu foi quando um de nós estava de olho em uma ação em queda até que um big player posicionou um lote de 1 milhão de ações na compra. Inicialmente, achamos que ele ia cancelar, que devia ter sido um engano, mas o lote permaneceu lá, a ordem não foi cancelada até o final do pregão e o preço não cedeu além daquele ponto. Daí veio o nome: paredão. As cotações basicamente paravam naquele preço, respiravam uns centavos para cima e voltavam a ceder de volta até a grande ordem. Ninguém teve coragem de operar, mas daria para ter posicionado compra 1 centavo acima daquele ponto e sair 2 ou 3 centavos para a frente com um lote pesado.

Para a nossa surpresa, o big player voltou no dia seguinte, com o mesmo lote. Apareceram também novos operadores como nós, traders, pois o book ficou mais cheio. Aliás, desta vez, todos do meu escritório sabiam o que fazer: colocávamos ordens pesadas, em torno de 20k e saímos com 1 centavo de lucro ($200 de lucro bruto por trade) e não tínhamos muito com o que nos preocupar enquanto o paredão estivesse lá. No entanto, se aquela ordem grande fosse cancelada, já sabíamos que teríamos que estopar nossas posições compradas imediatamente, pois haveria um efeito manada dos outros traders que estavam fazendo a mesma coisa que nós.

O big player voltou com sua posição de compra no terceiro dia, mas parece que desta vez havia mais gente com apetite vendedor, pois as agressões de venda aumentaram. É verdade que a fila de compra 1 centavo à frente do paredão também aumentou com a presença de mais traders, então, essas agressões de venda eram bem-vindas para que pudéssemos entrar comprados com nossas posições no book. No entanto, toda a nossa fila de compra foi executada e os vendedores seguiram vendendo em cima do paredão, de tal forma que aquele lote de compra, de 1 milhão de ações, foi diminuindo de tamanho. Mas nós já tínhamos uma estratégia muito bem definida para lidar com isso: quando 70% do paredão foi consumido, nós zeramos todas as nossas posições compradas com 1 centavo de prejuízo e invertemos a mão para a venda, em cima do próprio paredão. Com isso, ajudamos a consumir os lotes finais daquela compra posicionada no book de ofertas e abrimos caminho para que as cotações, retidas há dois dias, pudessem ceder (e com a ajuda do efeito manada que citei há pouco).

A situação rendeu bons trades, mas, muito mais do que isso, rendeu boas lições que carrego até hoje. Tanto é que voltei a aplicar esse conceito em operações de limite de oscilação no índice futuro, nos dias de circuit breaker. Mas, antes disso, quando o dólar estava abaixo de 3,00, vez ou outra, ainda encontrava alguns paredões no dia a dia (sempre analisando pelo contrato-padrão, nunca pelo minicontrato), mas  essas situações foram ficando cada vez mais raras com a volatilidade e a alta na moeda.

Ainda assim, ficaram as preciosas lições que esse conceito me ensinou e espero que você também faça bom proveito.